O gato preto – Conto inspirado em Edgar Allan Poe e Machado de Assis

Estava ali, sentado em minha cama, olhando pela janela, quando um gato preto apareceu. Trocamos olhares durante alguns minutos, até que, num piscar de olhos, ele sumiu.

O repentino desaparecimento do gato me lembrou do falecimento de minha esposa. Ela, assim como o gato, se foi repentinamente, sem que ninguém entendesse o motivo. Lágrimas secas ainda cobriam meu rosto quando voltei a me afogar em pensamentos. Por quê? por que uma pessoa tão pura, tão boa, teve que nos deixar sem nenhuma explicação? O que poderia ter ocorrido? O que faço da minha vida agora?

O devaneio ia muito bem, mas, ao notar o sol já ardendo através da janela entreaberta, me dei conta de que precisava me mexer. Em gestos maquinais, me arrumei, entrei no carro e fui ao cemitério. Não, não pense o leitor que decidi faltar ao trabalho para ir ao enterro de minha mulher. Nunca faltaria ao trabalho por algo tão banal! O que é a perda de um ente querido comparada com a de meu emprego? Além disso, certamente meus colegas estariam nesse momento criticando meu atraso.

Como ia dizendo, fui ao cemitério, passei pelos corredores da administração, onde recebi condolências de meus colegas sorridentes, e, como em todos os outros dias, me acomodei em minha salinha e aguardei a visita de pessoas entristecidas e comovidas com a morte de amigos e parentes.

A comoção, devo dizer, é muito rentável no meu negócio. É devido a ela que meus clientes gastam o dinheiro que muitas vezes não possuem para prestar um último tributo àqueles que amavam. Não sei se lhe importa, mas nesse dia lucrei muito. Havia falecido um pobre diabo, e sua família, tão pobre quanto o cadáver, esforçou-se para lhe dar um funeral decente. Afinal, eles se ajudavam ao máximo em vida e assim também agiam diante da morte. Morrera também um ricaço, mas, ao contrário do que o senhor leitor deve estar imaginando, não lucrei tanto com a morte dele. Seus parentes estavam mais preocupados em economizar para dar uma festa celebrando a herança recebida e gastar em cuecas de mil dólares e roupas de fios de ouro com diamantes para seus cachorros.

Findo meu expediente, passei no cemitério em que estava minha esposa e chorei como nunca havia chorado antes. Retornei para minha casa, jantei e me preparei para dormir. Antes de apagar as luzes, sentei-me em minha cama e olhei pela janela. Ali estava o gato preto, com seu olhar amarelo e brilhante. Nos encaramos novamente e ele sumiu, rindo-se, zombando de mim.

Todos os dias isso voltava a acontecer: acordava, ia ao trabalho, lamentava minha perda, voltava, via o gato e dormia.

Um dia não suportei mais a zombaria do gato. Naquele momento, o bicho não estava mais só na janela, mas via-me acordar, fazia as refeições comigo, via-me chorar na frente do túmulo e ria sem parar, com aquele riso soprado, zombador.

Nesse dia, peguei uma arma e atirei nele. O infeliz desviou e tornei a atirar, até acertá-lo. Uma hora consegui e matei o infeliz. Atirei em minha própria cabeça.

Escrevi esse pequeno conto no começo de 2006, para a disciplina de literatura do meu colégio. A intenção era escrever um conto sobre a estranheza, inspirado em Edgar Allan Poe. Tentei utilizar alguns elementos do conto “O Coração Denunciador” (The Tell-Tale Heart), como o narrador em primeira pessoa, a loucura e o final inesperado. Por pura ignorância e acaso, acabei usando o título de um outro conto de Poe, que acabei de ler, em busca de alguma semelhança com o meu.

Outro ponto importante na construção desse conto foi o fato de que, na época, eu havia acabado de descobrir Machado de Assis e estava absolutamente obcecado pela sua escrita (em especial por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”). Daí vieram as pequenas digressões, os comentários irônicos e misantropos e as pontuações metalinguísticas.

Essa versão que estou postando aqui está levemente alterada em relação à original. Deixei a escrita um pouco mais direta e escrevi com calma, revisando alguns pontos confusos. Na época, escrevi esse conto às pressas, à lápis, e deixei algumas inconsistências na narrativa (o que, felizmente, em nada afetou a minha avaliação). Espero que tenha conseguido polir o texto a um nível aceitável aqui.

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