O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (e comentários soltos sobre a canção de Kate Bush)

Para pessoas que não vivem em países de língua inglesa, talvez a relação entre O Morro dos Ventos Uivantes e Kate Bush não seja tão evidente. Portanto, vou começar esse post ligando esses pontos:

Kate Bush é uma cantora/compositora inglesa que fez muito sucesso entre o final dos anos 70 e os anos 80. Seu álbum de estréia, The Kick Inside (1978), contém, dentre algumas ótimas canções, o seu maior sucesso, Wuthering Heights.

O Morro dos Ventos Uivantes é um livro escrito por Emily Brontë entre 1845 e 1847 e publicado em 1847. Seu título original é… Wuthering Heights.

Wuthering Heights

Agora que a relação está clara, posso enfim admitir que comecei a ler esse livro por causa da canção homônima de Kate Bush. Estava tão impressionado com suas músicas e com seu estilo inconfundível que precisava ler esse livro que indiretamente inspirou Kate a compor seu maior sucesso. “Indiretamente” pois o que efetivamente a inspirou a compor a canção foi uma adaptação do livro para o cinema, lançada em 1970, fato este que só vim a descobrir após ler o artigo da Wikipedia sobre a música.

Apesar da curiosidade, não comecei a ler o livro imediatamente. Na realidade, fiquei um pouco receoso antes de lê-lo, pois esperava que sua história fosse excessivamente sentimental, como a letra da canção sugere. E foi justamente esse leve preconceito que contribuiu imensamente para que eu ficasse atônito no meio do romance.

Ao contrário do que imaginava, as ações das personagens do livro são, em sua grande maioria, violentas ou moralmente questionáveis. A história de amor, com leve toque sobrenatural, mencionada na letra da música de Kate, é um mero detalhe no meio do restante dos acontecimentos.

O romance conta a história de duas famílias: Earnshaw e Linton, da relação entre as duas e do distúrbio causado por Heathcliff, que, quando criança, foi adotado pelo patriarca da primeira família.

A estrutura do romance é bastante complexa, com algumas indas e vindas no tempo e narrativas intercaladas. Essa característica decorre, principalmente, da existência de três narradores. O primeiro é o Sr. Lockwood, que aluga Thrushcross Grange em busca de tranquilidade e conhece Wuthering Heights após o estrago causado por Heathcliff. Buscando entender a situação, Lockwood conversa com Ellen Dean, que foi empregada tanto dos Linton quanto dos Earnshaw. Ela conta a maior parte da história, citando em algumas partes o que uma outra personagem (cujo nome não revelarei para evitar estragar a surpresa) havia lhe contado.

Na minha opinião, a leitura desse livro já compensa apenas pela originalidade em sua estrutura, mas o enredo e a ambientação também são muito envolventes. Vou descrever alguns dos outros pontos que achei mais interessantes no livro, mas antes disso…

 

Atenção!!! Spoilers abaixo! Caso pretenda ler o livro e queira manter a surpresa, sugiro que pare a leitura deste post por aqui. Caso contrário, sinta-se à vontade para prosseguir!

 

Pois bem, antes de começar os comentários sobre o livro, vamos relembrar um pouco da história: Em resumo, Heathcliff se apaixona por Catherine, sua irmã de criação, e, após ser maltratado por seu irmão de criação, Hindley, e por erroneamente pensar que Catherine não o estima, acaba fugindo de casa, voltando anos depois para se vingar. Durante essa vingança, Heathcliff manipula e maltrata todos ao seu redor, tornando a situação terrível em Wuthering Heights (a residência da família Earnshaw) e Thrushcross Grange (a residência da família Linton).

Além da história principal, alguns outros elementos e personagens também são dignos de destaque, como Hareton Earnshaw, filho de Hindley, que, por omissão em sua educação, acaba agindo quase que como um selvagem. Outro destaque é a relação de amor/manipulação entre o frágil Linton Heathcliff e Catherine Linton.

Um dos temas principais observados nesse romance é a influência do patriarca sobre a família, representado, de maneiras diferentes, pelas figuras do Sr Earnshaw, Hindley e Heathcliff em Wuthering Heights. Percebe-se que toda a casa é diretamente afetada pela personalidade e pelas vontades do patriarca.

A questão do preconceito e da superação é abordada através de dois personagens: Heathcliff e Hareton. O primeiro é tido pelos Linton como indigno para conviver com seus filhos ou Catherine por aparentar não ter modos o bastante. Esse foi um dos motivadores que o levaram a deixar Wuthering Heights para obter formação e dinheiro e promover sua vingança geral. No caso de Hareton, ele é rejeitado por Catherine Linton por ser um bruto. Ao notar isso, ele busca se aperfeiçoar para poder ser digno da companhia da senhorita.

Outro ponto abordado no romance, ainda que de maneira pouco aprofundada, é o sobrenatural. Isso é representado pela cena em que Lockwood, em uma de suas visitas a Wuthering Heights, vê o fantasma de Catherine, que tenta entrar na casa através da janela. Inclusive, essa é uma das cenas citadas na canção de Kate Bush.

É possível notar também uma polarização entre Wuthering Heights e Thrushcross Grange. O primeiro local é um morro isolado e sombrio, frio, enquanto o segundo é mais acolhedor e abriga uma família mais fina e educada. Após muitos conflitos e resultados negativos causados pela influência dos patriarcas, no final do romance é finda essa polarização, fato que é apresentado com uma visão otimista a respeito do poder de integração da educação e da igualdade sexual e social.

Enfim, após ler esse livro, a primeira frase que me veio à cabeça foi: “Obrigado Kate Bush!”

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Sobre tseiti
Analista de sistemas, bancário, músico amador, leitor assíduo e meio geek demais de vez em quando.

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