The Beatles – Abbey Road – Lado A

Um assunto que será recorrente aqui é a música. Neste momento em específico, ando ouvindo muito Beatles, então nada mais natural do que começar escrevendo um pouco sobre o meu disco favorito deles:

The Beatles - Abbey Road

Sim, o Abbey Road! Na minha opinião, esse disco foi o magnum opus da única banda de rock tão conhecida quanto Jesus. A propósito, essa constatação sobre a fama da banda foi feita pelo próprio John Lennon, em meados de março de 1966:

“Christianity will go. It will vanish and shrink. I needn’t argue about that: I’m right, and I will be proved right. We’re more popular than Jesus Christ now; I don’t know which will go first—rock ‘n’ roll or Christianity. Jesus was all right, but his disciples were thick and ordinary. It’s them twisting it that ruins it for me.”

Três anos e alguns meses depois dessa polêmica declaração, em setembro de 1969, é lançado o Abbey Road, o último disco gravado pelos Fab Four – Lembrando que o álbum Let it be, apesar de ter sido lançado em novembro de 1970, foi composto de gravações realizadas antes da conclusão de Abbey Road.

No livro “The Beatles: Gravações Comentadas & Discografia Completa”, de Jeff Russell, é mencionado que para esse disco, os principais compositores da banda, Lennon e McCartney, divergiam de opinião quanto ao formato que o álbum deveria ter. Enquanto Lennon desejava fazer um disco de rock básico, McCartney desejava que fosse composta uma “ópera pop”, com diversas músicas que se misturavam em uma única sequência. Ouvindo o álbum, percebemos que ambos os desejos se concretizaram.

No lado A, foi aplicada a ideia de Lennon. As trilhas desse lado apresentam músicas bem trabalhadas, mas num formato mais tradicional no que se refere à transição entre as faixas.

Come Together

A música de abertura desse álbum é “Come Together”, um rock cru com um riff de baixo marcante, que se transforma em música de propaganda política no refrão… Hã? Bem, se ela não apresenta semelhança com canções do horário eleitoral, deveria parecer, já que a composição foi feita por Lennon para promover Timothy Leary em sua candidatura para o governo da Califórnia, EUA, em 1969. E o fato do candidato ter sido preso em dezembro do mesmo ano por porte de maconha não diminui o valor desse prelúdio da obra final dos Beatles. (Numa nota completamente sem propósito, gostaria de observar que, enquanto eles podiam ter “Come Together” na propaganda política, nós chegamos a ter Ey-Ey-Eymael! Morram de inveja, gringos!)

Something

Na sequência, somos brindados com uma das melhores canções do Beatle mais jovem e místico: George Harrisson. A inspiração para “Something” não é muito clara. Enquanto Pattie Boyd, ex-esposa do Beatle (antes de ser conquistada por seu amigo Eric Clapton, que compôs para ela a música Layla, presente no único disco do Derek and the Dominoes, que certamente comentarei aqui futuramente), comentou em sua autobiografia – “Wonderful Tonight”, de 2007 – que Harrisson dizia que a música foi feita para ela, o próprio negou, dizendo que pensava em Ray Charles quando escreveu a canção. Também vale notar que o verso inicial da canção, foi emprestada da música “Something in the way she moves”, do seu colega de gravadora James Taylor.

Maxwell’s Silver Hammer

A terceira música do disco é a alegre “Maxwell’s Silver Hammer”, escrita por McCartney. Apesar de seu clima leve, há uma certa pitada de humor negro na canção, que conta a estória de Maxwell Edison, estudante de medicina que assassina três pessoas com seu martelo prateado. Segundo McCartney, em entrevista concedida em 1994, a música é uma analogia para situações em que algo dá errado repentinamente. Lennon, que “detestava essa música”, afirmou para Tony King, um funcionário da gravadora Apple, que essa é uma canção a respeito da lei do carma, assim como seu single solo “Instant Karma”.

Oh Darling

Composta pelo mesmo Beatle responsável pela canção anterior do disco, “Oh Darling” é um rock direto, com vocais fortes e “desesperados”. Para alcançar o clima desejado, McCartney cantou a faixa repetidas vezes, durante uma semana, para que sua voz soásse áspera. Ao contrário da música anterior do disco, Lennon apresentou interesse em “Oh Darling”, chegando a manifestar vontade de inserir seus vocais na canção, por considerar que era mais próxima do seu estilo do que de seu colega de banda.

Octopus’s Garden

“Octopus’s Garden”, a segunda música de Ringo Starr feita para os Beatles (a primeira foi Don’t Pass Me By, do White Album de 1968), é uma canção alegre, que soa como uma música infantil. Ela foi inspirada em uma viagem familiar em Sardenha, no ano de 1968, em que o capitão da embarcação na qual o baterista se encontrava contou a ele como os polvos tinham o hábito de viajar no fundo do mar, buscando pedras e objetos brilhantes para construir jardins.

Harrisson, que ajudou Starr a fazer a música, comentou que a música é tão pacífica que parecia que Ringo estava compondo músicas cósmicas sem nem se dar conta disso.

I Want You (She’s So Heavy)

A segunda música de Lennon no disco, “I Want You (She’s So Heavy)” é minimalista em termos de letras, porém pouco usual com relação à estrutura e duração. De certa forma, ela lembra um pouco “Happiness is a Warm Gun”, do “White Album”, que também é uma mescla de trechos de músicas.

O trecho “I Want You” tem uma estrutura de blues, com os vocais dobrados com a guitarra, com as transições entre os chorus feitas com licks marcantes de baixo e órgão. As partes de “She’s So Heavy” tem um clima mais misterioso e pesado, com um riff de guitarra se repetindo, enquanto outros instrumentos e sons como um órgão moog em um dos segmentos e chiados em outro tecem uma cama sonora no fundo, acompanhados pela brilhante cozinha de Paul e Ringo.

No livro “The Beatles: A história por trás de todas as canções”, de Steve Turner, é mencionado que essa canção pouco convencional é uma declaração de amor de Lennon para Yoko Ono. Declaração esta que encerra o lado A do disco e também o trabalho dos Beatles como um conjunto (essa foi, cronologicamente, a última canção mixada por todo o grupo).

E aqui termino abruptamente, assim como a última canção mencionada, os comentários a respeito do lado A do “Abbey Road”. Em breve pretendo complementar este post com novas informações e escrever um novo a respeito do lado B.

Fontes:

Site da Revista Time: http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,842611,00.html#ixzz1RwGq4WhB

Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Abbey_Road (e páginas relacionadas)

RUSSELL, Jeff. “The Beatles: Gravações Comentadas & Discografia Completa”, 2005.

TURNER, Steve. “The Beatles: A história por trás de todas as canções”, 2009.

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Analista de sistemas, bancário, músico amador, leitor assíduo e meio geek demais de vez em quando.

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