Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe

Essa obra de Goethe, publicada em 1774, é uma das mais famosas do movimento Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Esse movimento pregava valores opostos ao do Iluminismo vigente no século XVIII, que prezava pelo racionalismo e pela ciência. Portanto, os seguidores do Sturm und Drang frequentemente exaltavam as emoções e os sentimentos individuais, bem como a natureza.

São exatamente esses os principais elementos encontrados em “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Esse romance epistolar, isto é, escrito em formato de cartas, conta com um protagonista que constantemente ressalta as belezas da natureza e que demonstra suas emoções de maneira extremamente intensa, principalmente aquelas causadas pela sua paixão por Lotte, moça comprometida por quem o jovem Werther se apaixona.

A estrutura do romance é bastante singular. As cartas e notas que o compõem são somente as escritas por Werther, ou seja, não é mostrada nenhuma das respostas a elas, o que leva o leitor a apenas imaginar como é Wilhelm, o amigo do protagonista a quem é direcionada a maioria das cartas. Próximo ao final do romance, surge um narrador neutro que faz o papel de editor da compilação dos últimos escritos de Werther, contando o que se sucedeu entre uma carta e outra, bem como o desfecho da história.

Como de costume, antes de discutirmos os assuntos que são abordados no romance, segue um pequeno resumo dos acontecimentos:

Atenção! Spoilers abaixo!

Nas primeiras cartas, o protagonista relata ao amigo suas impressões sobre o vilarejo em que decidiu ir morar, em busca de tranquilidade. Conta sobre a belíssima paisagem e sobre suas relações amistosas com os moradores, especialmente as crianças.

Em seguida, o informa a respeito de seu encontro com Lotte, de seu fascínio por ela e da relação de amizade que logo se estabeleceu entre os dois. Logo que a conheceu, num baile, Werther fora alertado quanto ao noivado da moça com outro homem, chamado Albert, porém esse conhecimento não o impediu de se apaixonar desesperadamente por ela.

Após conviver com o casal por algum tempo, com o objetivo de esquecê-los, Werther decide se mudar e ir trabalhar com um embaixador, pessoa a quem o jovem não nutria muita estima. Apesar do descontentamento com seu empregador, o protagonista permanece trabalhando até que, por acaso, acaba visitando um colega seu em um dia de encontro da alta sociedade. Na ocasião, Werther é humilhado e desprezado a tal ponto que acaba decidindo por retornar ao vilarejo em que Lotte e Albert residiam.

No seu retorno, recebe a notícia de que os dois acabaram se casando. Ele continua visitando o casal por mais algum tempo, sofrendo incessantemente. Após uma última visita, em que Albert estava ausente, Werther declama alguns versos do canto de Ossian e acaba por impetuosamente beijar a moça.

Após algum tempo de planejamento, Werther pede emprestado as pistolas de Albert, sob o pretexto de levá-las em uma viagem, e, à meia noite, comete suicídio. Agoniza por 12 horas e finalmente expira. As palavras finais do romance contam como foi seu enterro: “O velho [magistrado, pai de Lotte] e os filhos acompanharam o cortejo; Albert, porém, não teve forças para fazê-lo. Chegou-se a temer pela vida de Lotte. Alguns trabalhadores levaram o caixão. Nenhum sacerdote o acompanhou”.

Costumes e ambientação social

Como talvez a grande parte dos romances, Os Sofrimentos do Jovem Werther retrata, ainda que de maneira secundária, os costumes da época em que fora escrito e, possivelmente, a impressão do autor a respeito da sociedade daquela época.

O protagonista aparentava estar em uma posição socioeconômica confortável. Ele possuía um empregado, em várias ocasiões oferecia moedas para as pessoas menos abastadas, e ainda assim podia optar por não trabalhar. As pessoas de posição similar com quem ele convivia compartilhavam de seu gosto pela música, dança e pela literatura, como é possível observar pela relação dele com Lotte, a quem conhecera em um baile organizado por jovens da região em que Werther residia.

Apesar de sua posição, Werther também convivia com as pessoas mais simples e as tratava com dignidade. Em várias oportunidades, conversava com as pessoas do vilarejo e fazia amizades com eles. Segundo o que é sugerido pelo romance, essas pessoas trabalhavam no campo e levavam uma vida simples e prática. O jovem recolheu algumas histórias do convívio com essas pessoas, que representam como a força dos sentimentos podem abalar a qualquer um, independente de sua posição social.

Ao contrário de seu tratamento com os habitantes do vilarejo, Werther é vítima de preconceito pelas pessoas da alta sociedade, a quem já sentia um certo desprezo antes do incidente na casa do conde, que acabou motivando sua demissão voluntária do trabalho com o embaixador. Alguns trechos que ilustram esse sentimento:

“E a miséria exemplar, o tédio que reina entre a gente estúpida que se vê por aqui! E a mania da posição social: espiam-se mutuamente, apenas para encontrar uma oportunidade de passar a perna um no outro. (…)

(…)

O que mais me aborrece é a inexorável condição burguesa. Sei, tão bem quanto os outros, como a diferença entre classes é necessária, e quantas vantagens me proporciona: mas gostaria que ela não viesse a fechar meu caminho, no momento em que poderia ainda gozar neste mundo um pouco de alegria, um átimo de felicidade.” (pp. 84, 85)

Além desses trechos, a própria carta em que ele relata ao amigo os acontecimentos na casa do conde apresenta o desdém que ele sente por essas pessoas, por quem é discriminado e ignorado. Esse sentimento é aguçado quando Werther ouve da senhorita de B…, com quem possuía certa amizade, o relato das difamações que ele sofreu pelas pessoas da alta sociedade.

Durante a época em que trabalhou para o embaixador, além de suas impressões relatadas anteriormente, Werther também apresenta sua visão negativa quanto aos seus colegas de trabalho:

“Que gente é essa, criaturas cujas almas são absorvidas pelas formalidades; cujos interesses e esforços, durante anos inteiros, estão exclusivamente voltados em tentar conseguir a cadeira mais próxima da cabeceira da mesa da recepção! Não que lhes falte o que fazer: até, pelo contrário, os trabalhos se acumulam, porque as pequenas trocas de farpas, nas lutas por promoções, acabam dificultando a realização de negócios importantes.” (p. 86)

Esses são os principais grupos de pessoas com quem o protagonista convive. Em alguns trechos, como os mencionados anteriormente, são apresentadas algumas críticas, que são inseridas livremente ao longo do texto, facilitadas principalmente pela liberdade que o formato epistolar proporciona.

Na realidade, é possível observar que essas impressões não são centrais no romance, mas apenas um recurso auxiliar para a ambientação do romance e construção do personagem de Werther, esse sim, o grande foco da obra.

Representantes dos ideais do Sturm und Drang

O personagem de Werther representa claramente os ideais do Sturm und Drang. Suas ações e pensamentos são normalmente carregados de sentimentos e exprimidos de maneira apaixonada.

Um exemplo é a passagem em que ele expõe os males do mau humor, na viagem em que acompanha Lotte, que iria cuidar de uma pessoa doente. Na ocasião, chega a verter lágrimas, tamanha a comoção diante de sua própria argumentação.

Werther era também um declarado amante da natureza. Além das inúmeras descrições das belezas do local em que passou a residir, uma passagem que denota essa sua estima pela natureza é aquela em que ele toma conhecimento da derrubada das nogueiras da casa de um pastor, comandada pela esposa dele e autorizada pelo governo. Sua reação ante o caso é de extrema indignação. No parágrafo final da carta em que relata esse fato, ainda faz um comentário irônico quanto ao descaso das autoridades pela natureza:

“Ah! Foram abatidas! Se eu fosse príncipe, pegaria a mulher do pastor, o pastor, o prefeito, a Câmara Municipal e… Ora! Se eu fosse príncipe, que importância daria às árvores de meu país?’ (p.109)

Além dos exemplos mencionados anteriormente, é impossível deixar de notar as inúmeras declarações que ele faz a Lotte ao longo do romance, bem como as observações quanto às suas emoções e sofrimentos.

Uma das passagens que se destacam nesse sentido é aquela em que Werther chega ao ponto de invejar o estado de loucura de um dos personagens que figuram no romance: o ex-escrevente do pai de Lotte, que acabou se apaixonando por ela e, após se declarar, foi demitido e enlouqueceu. Segundo a visão de Werther, o estado insensato de alegria em que o ex-escrevente se encontrava era preferível à falta de perspectiva que via em seu próprio caso. Após essa reflexão, novamente cogita o suicídio como solução para seus sofrimentos.

Além das figuras de Werther e do ex-escrevente, um outro personagem se destaca como um representante da intensidade das emoções do Romantismo. Esse é o jovem camponês que estava apaixonado por uma viúva para quem trabalhava. O primeiro encontro entre ele e Werther ocorreu pouco antes do protagonista conhecer Lotte. Na ocasião, ele se mostra impressionado pela descrição que o camponês fez de sua amada e inclusive sente em si próprio a força dessa paixão. Logo em seguida, ainda descreve a idealização típica do Romantismo:

“(…) Não me censure se confesso que, à lembrança dessa inocência e dessa candura, queima-me um secreto ardor; a imagem dessa fidelidade e dessa ternura me persegue por toda parte; e eu, ardendo, por assim dizer, nesse mesmo fogo, sinto-me carente e consumido.

Farei o possível para vê-la quanto antes, ou, pensando bem melhor, devo evitá-la. É preferível vê-la pelos olhos de seu apaixonado: talvez os meus não a vejam tal como ela agora se apresenta em minha mente. Por que, então, macular tão bela imagem?” (p.27)

No segundo encontro, Werther descobre que a paixão crescente do camponês pela viúva o levou a tentar possuí-la à força e que, com isso, acabou sendo demitido. Descobre também que o rapaz que substituiu o camponês também se apaixonou por ela, porém teve seus sentimentos correspondidos.

No último encontro, Werther se depara com o camponês logo após ele assassinar o seu substituto. Sentindo na pele a sensação que afligia seu amigo, o protagonista tenta salvá-lo da punição, argumentando a seu favor ao magistrado que julgaria o caso, porém sem resultado.

O mais interessante da inclusão dessa pequena parábola no romance é a possibilidade que ela gera de Werther analisar uma situação similar à sua, sob uma perspectiva “parcialmente externa”. Digo isso pois ele acabava misturando o caso de seu amigo com o seu próprio. Isto é, ao defender o camponês, ele defendia a si mesmo, outra vítima da intensidade dos próprios sentimentos. Ao receber a resposta do magistrado de que não seria possível evitar ou aliviar a condenação, ele próprio acabou se sentindo condenado e, a partir de então, passou a trilhar com maior convicção à sua ação derradeira.

Paixão x Razão – A relação entre Werther e Albert

O contraponto de Werther surge no romance através da figura de Albert. Ele, ao contrário do protagonista, é um homem calmo, prático, ponderado, dedicado ao trabalho e extremamente racional. Apesar das diferenças, ambos se estimavam mutuamente. Com o tempo e o crescente interesse de Werther por Lotte, a relação entre os rapazes começou a ficar gradualmente distante, ao ponto de Albert evitar ficar perto de Lotte quando eram visitados por Werther.

O primeiro momento em que as ideias dos dois entram em choque é na discussão acerca do suicídio. Albert o considera um ato de covardia e insensatez, ao passo que Werther defende que o suicídio é uma saída viável para as doenças irremediáveis da alma. Pela argumentação apresentada no diálogo, fica evidente a dicotomia na forma de pensar dos dois: um é guiado pela paixão e o outro pela razão.

Outro momento em que eles entram em desacordo é quando Werther defende o camponês que cometeu o assassinato por paixão. Nesse caso, o magistrado, ao repreender o protagonista por defender um assassino, independente da situação que o levou a tal, é apoiado por Albert.

O papel de Albert no romance é o de um antagonista, no sentido em que seus ideais são opostos aos de Werther e considerando que ele possui o amor da pessoa por quem o protagonista tanto sofre. Suas ações, no entanto, não são moralmente questionáveis ou prejudiciais a ninguém. Sob esse ponto de vista, Werther surge como inimigo de si próprio e como o principal responsável pelos distúrbios causados a seu redor, mais uma vez destacando o pensamento individual e a força dos sentimentos, tão explorados pelo romance.

As referências às obras de Homero e aos cantos de Ossian (James Macpherson)

Dois grandes autores recebem destaque nessa obra. O primeiro é Homero, autor favorito de Werther, que em diversas ocasiões é mencionado ao longo do romance. O segundo é Ossian, que tem um trecho de sua obra transcrito no clímax do romance.

Homero é um poeta grego que, supostamente, viveu aproximadamente entre os séculos 7 e 8 aC. Ele é tido como o autor dos poemas épicos Ilíada, que conta a história da Guerra de Tróia, e Odisséia, que conta o retorno de Odisseu/Ulisses a Ítaca. Ambas as obras são consideradas as mais antigas da literatura ocidental e são essenciais na mitologia grega.

Ossian é um poeta fictício irlandês, cujas obras foram, na realidade, escritas pelo poeta escocês James Macpherson e publicadas em meados de 1760. Os cantos que compões suas obras são baseadas em lendas da mitologia irlandesa. No trecho transcrito em Os Sofrimentos do Jovem Werther, são contadas as tragédias de alguns dos heróis. Sentindo intensamente as emoções transmitidas pelos cantos, no clímax do romance, o protagonista acaba finalmente beijando Lotte. Ela, num misto de amor e ira, acaba tremulamente afastando o jovem e cortando suas relações com ele.

O suicídio de Werther

Finalmente, após os sofrimentos do protagonista e de suas reflexões a respeito de como poderia sair daquela situação, Werther enfim encontra a solução de seus problemas na própria morte.

Ele havia considerado algumas outras saídas antes de tomar sua decisão final. A primeira foi tentar deixar Lotte, ao ir trabalhar com o embaixador. Após essa alternativa falhar, a restante consistia em eliminar um dos pontos do triângulo amoroso em que estava envolvido. Porém, por sua incapacidade de assassinar outra pessoa, acabou tomando a única alternativa restante.

Desde muito antes de efetivamente tomar sua decisão, Werther já considerava essa alternativa como uma das saídas para seu problema. As principais passagens que evidenciam isso são: a em que ele discute sobre o suicídio com Albert e a em que conhece o ex-escrivão do pai de Lotte, e em que logo após se pergunta se Deus ficaria ofendido caso um filho seu voltasse para junto Dele antes do esperado.

A ação final de Werther ilustra muito bem a visão de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX, sobre o suicídio (trecho transcrito a seguir). Com isso, mais uma vez, é possível observar como a literatura, ou mesmo as artes em geral, são uma importante janela para a compreensão do comportamento humano.

“Muito longe de ser uma negação da Vontade, o suicídio é uma marca de afirmação intensa da Vontade, visto que a negação da Vontade consiste, não em ter horror aos males da vida, mas em detestar–lhe os prazeres. Aquele que se mata queria viver; está apenas descontente com as condições em que a vida lhe coube. Por conseguinte, destruindo o seu corpo, não é ao querer–viver, é simplesmente à vida, que ele renuncia. Ele queria a vida, que a Vontade existisse e se afirmasse sem obstáculos,mas as conjunturas presentes não lho permitem e ele sente com isso uma grande dor.” (SCHOPENHAUER, A. O Mundo comoVontade e Representação, IV, § 69) – Fonte

Obs: Acabei encontrando esse trecho por acaso na internet, há alguns anos, enquanto fazia uma pesquisa para o colégio. Ainda não tive a oportunidade de ler essa obra por completo, mas pretendo fazê-lo futuramente.

Obs2: Li a edição publicada em 2010 pela Editora Abril, traduzida por Leonardo César Lack.

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O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (e comentários soltos sobre a canção de Kate Bush)

Para pessoas que não vivem em países de língua inglesa, talvez a relação entre O Morro dos Ventos Uivantes e Kate Bush não seja tão evidente. Portanto, vou começar esse post ligando esses pontos:

Kate Bush é uma cantora/compositora inglesa que fez muito sucesso entre o final dos anos 70 e os anos 80. Seu álbum de estréia, The Kick Inside (1978), contém, dentre algumas ótimas canções, o seu maior sucesso, Wuthering Heights.

O Morro dos Ventos Uivantes é um livro escrito por Emily Brontë entre 1845 e 1847 e publicado em 1847. Seu título original é… Wuthering Heights.

Wuthering Heights

Agora que a relação está clara, posso enfim admitir que comecei a ler esse livro por causa da canção homônima de Kate Bush. Estava tão impressionado com suas músicas e com seu estilo inconfundível que precisava ler esse livro que indiretamente inspirou Kate a compor seu maior sucesso. “Indiretamente” pois o que efetivamente a inspirou a compor a canção foi uma adaptação do livro para o cinema, lançada em 1970, fato este que só vim a descobrir após ler o artigo da Wikipedia sobre a música.

Apesar da curiosidade, não comecei a ler o livro imediatamente. Na realidade, fiquei um pouco receoso antes de lê-lo, pois esperava que sua história fosse excessivamente sentimental, como a letra da canção sugere. E foi justamente esse leve preconceito que contribuiu imensamente para que eu ficasse atônito no meio do romance.

Ao contrário do que imaginava, as ações das personagens do livro são, em sua grande maioria, violentas ou moralmente questionáveis. A história de amor, com leve toque sobrenatural, mencionada na letra da música de Kate, é um mero detalhe no meio do restante dos acontecimentos.

O romance conta a história de duas famílias: Earnshaw e Linton, da relação entre as duas e do distúrbio causado por Heathcliff, que, quando criança, foi adotado pelo patriarca da primeira família.

A estrutura do romance é bastante complexa, com algumas indas e vindas no tempo e narrativas intercaladas. Essa característica decorre, principalmente, da existência de três narradores. O primeiro é o Sr. Lockwood, que aluga Thrushcross Grange em busca de tranquilidade e conhece Wuthering Heights após o estrago causado por Heathcliff. Buscando entender a situação, Lockwood conversa com Ellen Dean, que foi empregada tanto dos Linton quanto dos Earnshaw. Ela conta a maior parte da história, citando em algumas partes o que uma outra personagem (cujo nome não revelarei para evitar estragar a surpresa) havia lhe contado.

Na minha opinião, a leitura desse livro já compensa apenas pela originalidade em sua estrutura, mas o enredo e a ambientação também são muito envolventes. Vou descrever alguns dos outros pontos que achei mais interessantes no livro, mas antes disso…

 

Atenção!!! Spoilers abaixo! Caso pretenda ler o livro e queira manter a surpresa, sugiro que pare a leitura deste post por aqui. Caso contrário, sinta-se à vontade para prosseguir!

 

Pois bem, antes de começar os comentários sobre o livro, vamos relembrar um pouco da história: Em resumo, Heathcliff se apaixona por Catherine, sua irmã de criação, e, após ser maltratado por seu irmão de criação, Hindley, e por erroneamente pensar que Catherine não o estima, acaba fugindo de casa, voltando anos depois para se vingar. Durante essa vingança, Heathcliff manipula e maltrata todos ao seu redor, tornando a situação terrível em Wuthering Heights (a residência da família Earnshaw) e Thrushcross Grange (a residência da família Linton).

Além da história principal, alguns outros elementos e personagens também são dignos de destaque, como Hareton Earnshaw, filho de Hindley, que, por omissão em sua educação, acaba agindo quase que como um selvagem. Outro destaque é a relação de amor/manipulação entre o frágil Linton Heathcliff e Catherine Linton.

Um dos temas principais observados nesse romance é a influência do patriarca sobre a família, representado, de maneiras diferentes, pelas figuras do Sr Earnshaw, Hindley e Heathcliff em Wuthering Heights. Percebe-se que toda a casa é diretamente afetada pela personalidade e pelas vontades do patriarca.

A questão do preconceito e da superação é abordada através de dois personagens: Heathcliff e Hareton. O primeiro é tido pelos Linton como indigno para conviver com seus filhos ou Catherine por aparentar não ter modos o bastante. Esse foi um dos motivadores que o levaram a deixar Wuthering Heights para obter formação e dinheiro e promover sua vingança geral. No caso de Hareton, ele é rejeitado por Catherine Linton por ser um bruto. Ao notar isso, ele busca se aperfeiçoar para poder ser digno da companhia da senhorita.

Outro ponto abordado no romance, ainda que de maneira pouco aprofundada, é o sobrenatural. Isso é representado pela cena em que Lockwood, em uma de suas visitas a Wuthering Heights, vê o fantasma de Catherine, que tenta entrar na casa através da janela. Inclusive, essa é uma das cenas citadas na canção de Kate Bush.

É possível notar também uma polarização entre Wuthering Heights e Thrushcross Grange. O primeiro local é um morro isolado e sombrio, frio, enquanto o segundo é mais acolhedor e abriga uma família mais fina e educada. Após muitos conflitos e resultados negativos causados pela influência dos patriarcas, no final do romance é finda essa polarização, fato que é apresentado com uma visão otimista a respeito do poder de integração da educação e da igualdade sexual e social.

Enfim, após ler esse livro, a primeira frase que me veio à cabeça foi: “Obrigado Kate Bush!”

Discurso do Método, de René Descartes

A busca pela verdade inquietou, e certamente inquietará, inúmeras gerações. São imensuráveis os esforços realizados para a obtenção do conhecimento que possuímos hoje, assim como as hipóteses e métodos formulados pelas grandes mentes que contribuíram para tal.

Retrato de René Descartes, por Frans Hals, 1648.

Retrato de René Descartes, por Frans Hals, 1648. Retirado de: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Frans_Hals_-_Portret_van_Ren%C3%A9_Descartes.jpg

Uma dessas pessoas notáveis documentou o método utilizado para alcançar as descobertas que marcaram seu nome em diversas áreas do conhecimento humano. Seu nome era René Descartes (1596-1650), e a obra em que ele descreveu sua forma de obter a verdade é intitulada Discurso do Método (1637). Esse sucinto livro é dividido em seis partes:

Na primeira, são explicadas as motivações para a criação do método e a visão do autor sobre assuntos como a leitura, a eloquência, a poesia, a matemática, a teologia, a filosofia e as demais ciências. Destaco aqui duas passagens que me chamaram a atenção: a primeira por mostrar uma visão interessante a respeito da leitura e a segunda por sua importância no método posteriormente explicado.

“(…) a leitura de todos os bons livros é semelhante a uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revela somenta seus melhores pensamentos” (p.18)

“Eu me comprazia, sobretudo, com a matemática, por causa da certeza e da evidência de suas razões, mas ainda não percebia sua verdadeira aplicação e, pensando que só servia para as artes mecânicas, espantava-me de que, sendo seus fundamentos tão firmes e sólidos, não se houvesse construído sobre eles nada que fosse mais relevante.” (p.19)

Na segunda parte, o autor menciona que sua forma de pensar exige uma reconstrução dos conceitos absorvidos até então, o que seria impraticável para o que são, para Descartes, as duas espécies de espíritos: os que, “julgando-se mais hábeis do que realmente são, não podem impedir a si mesmos de precipitar seus juízos, nem ter suficiente paciência para conduzir ordenadamente todos os seus pensamentos” e os que, “tendo bastante razão ou modéstia, para julgar-se menos capazes de distinguir o verdadeiro do falso do que alguns outros, pelos quais podem ser instruídos, devem antes contentar-se em seguir as opiniões desses outros do que procurar por si próprios outras melhores” (pp.26-27). No seu caso, ao entrar em contato com diversos pontos de vista sobre os mesmos assuntos e observar que o hábito e os costumes influenciam as opiniões de um povo muito mais do que um conhecimento correto, o autor decidiu tentar conduzir por si próprio a busca pela verdade. Dessa necessidade, surge, com influência da lógica e da matemática, o método que guiou seu pensamento. Segue a transcrição do trecho em que ele explica os quatro preceitos de seu método:

“O primeiro era o de nunca aceitar alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal, ou seja, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção e de nada mais incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que eu não tivesse motivo algum para duvidar dele.

O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias, a fim de melhor resolvê-las.

O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais compostos e presumindo até mesmo uma ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, o de elaborar em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.” (p.29)

Na terceira parte, Descartes explica a sua moral provisória, que o guiou enquanto a verdadeira estava em construção. Essa moral tinha como fundamentos as seguintes máximas:

  1. Obedecer às leis e costumes do país em que residia, tendo opiniões moderadas sobre todos os assuntos ainda não estudados;
  2. Ser firme e decidido nas ações, seguindo sempre as opiniões mais prováveis e tomando-as como certas e verdadeiras;
  3. Buscar sempre alterar a própria opinião antes da do restante das pessoas, de forma que seja possível se contentar com as situações que lhe são impostas.

A quarta parte contém as primeiras descobertas que Descartes realizou com seu método, no campo da metafísica. É nela que surge a célebre frase “penso, logo existo”. Com essa frase, o filósofo define que é possível fingir a inexistência de um corpo ou um mundo físico, mas que o pensamento por si só pressupõe uma existência. Dessa forma, ele separa o eu-físico, o corpo, do eu-pensante, a alma.

É também nessa parte que ele defende a existência de Deus, ao afirmar que, “ciente de que conhecia algumas perfeições que eu não tinha, não era o único ser que existia (…), mas que devia necessariamente haver algum outro mais perfeito, do qual eu dependesse e de quem tivesse recebido tudo o que possuía. De fato se eu fosse sozinho e independente de qualquer outro, de modo que tivesse recebido, de mim próprio, todo esse pouco pelo qual participava do Ser perfeito, poderia receber de mim, pelo mesmo motivo, todo o restante que sabia faltar-me e ser assim eu próprio infinito, eterno, imutável, onisciente, todo-poderoso e, enfim, ter todas as perfeições que podia perceber existirem em Deus.”(pp.43-44)

A partir disso, Descartes afirma que todo o conhecimento verdadeiro é proveniente do Ser perfeito, isto é, Deus, enquanto o conhecimento falso, tendo sido também proveniente de Deus, sempre apresenta um fundo de verdade, mesmo que distorcido por nossas percepções. Dessa forma, ele reforça que, para alcançarmos a verdade, não podemos nos deixar levar por nossas percepções sem que julguemos nossas ideias através da razão.

Na quinta parte, o filósofo menciona algumas de suas outras descobertas, documentadas em um livro que ele decidiu deixar de publicar ao descobrir que uma outra pessoa havia sido punida por publicar suas ideias. Dentre as descobertas, ele apresenta com maior nível de detalhe o funcionamento do coração e do corpo humano e defende a ideia de que os animais diferem da humanidade ao não possuem razão.

A última parte contém justificativas para a não publicação da obra em que ele descreve suas descobertas e observações de Descartes quanto aos passos necessários para que a busca pelo conhecimento continue avançando. Os pontos principais que ele menciona quanto a isso são que não devemos nos contentar em apenas entender e repetir o que os grandes filósofos e intelectuais escreveram; e que a busca pela verdade deve ser individual, de forma que o máximo que podem fazer para ajudar uma pessoa com suas descobertas é deixarem-na em paz.

Esse é, em resumo, o que Descartes tentou transmitir em seu Discurso do Método. Isso, é claro, é um resumo do que considerei mais relevante nessa obra, para poder servir mais como uma referência futura para mim mesmo e talvez despertar um pouco de interesse nos corajosos e/ou desocupados que leram este post até aqui. Digo isso para que meu esforço não seja em vão, já que o filósofo, em sua obra, disse se sentir “à vontade em pedir aqui às futuras gerações que jamais acreditem nas coisas que lhes forem apresentadas omo provindas de mim, se eu mesmo não as tiver divulgado”.

Obs: Li a 2ª edição publicada pela editora Escala, com tradução de Ciro Mioranza.

O gato preto – Conto inspirado em Edgar Allan Poe e Machado de Assis

Estava ali, sentado em minha cama, olhando pela janela, quando um gato preto apareceu. Trocamos olhares durante alguns minutos, até que, num piscar de olhos, ele sumiu.

O repentino desaparecimento do gato me lembrou do falecimento de minha esposa. Ela, assim como o gato, se foi repentinamente, sem que ninguém entendesse o motivo. Lágrimas secas ainda cobriam meu rosto quando voltei a me afogar em pensamentos. Por quê? por que uma pessoa tão pura, tão boa, teve que nos deixar sem nenhuma explicação? O que poderia ter ocorrido? O que faço da minha vida agora?

O devaneio ia muito bem, mas, ao notar o sol já ardendo através da janela entreaberta, me dei conta de que precisava me mexer. Em gestos maquinais, me arrumei, entrei no carro e fui ao cemitério. Não, não pense o leitor que decidi faltar ao trabalho para ir ao enterro de minha mulher. Nunca faltaria ao trabalho por algo tão banal! O que é a perda de um ente querido comparada com a de meu emprego? Além disso, certamente meus colegas estariam nesse momento criticando meu atraso.

Como ia dizendo, fui ao cemitério, passei pelos corredores da administração, onde recebi condolências de meus colegas sorridentes, e, como em todos os outros dias, me acomodei em minha salinha e aguardei a visita de pessoas entristecidas e comovidas com a morte de amigos e parentes.

A comoção, devo dizer, é muito rentável no meu negócio. É devido a ela que meus clientes gastam o dinheiro que muitas vezes não possuem para prestar um último tributo àqueles que amavam. Não sei se lhe importa, mas nesse dia lucrei muito. Havia falecido um pobre diabo, e sua família, tão pobre quanto o cadáver, esforçou-se para lhe dar um funeral decente. Afinal, eles se ajudavam ao máximo em vida e assim também agiam diante da morte. Morrera também um ricaço, mas, ao contrário do que o senhor leitor deve estar imaginando, não lucrei tanto com a morte dele. Seus parentes estavam mais preocupados em economizar para dar uma festa celebrando a herança recebida e gastar em cuecas de mil dólares e roupas de fios de ouro com diamantes para seus cachorros.

Findo meu expediente, passei no cemitério em que estava minha esposa e chorei como nunca havia chorado antes. Retornei para minha casa, jantei e me preparei para dormir. Antes de apagar as luzes, sentei-me em minha cama e olhei pela janela. Ali estava o gato preto, com seu olhar amarelo e brilhante. Nos encaramos novamente e ele sumiu, rindo-se, zombando de mim.

Todos os dias isso voltava a acontecer: acordava, ia ao trabalho, lamentava minha perda, voltava, via o gato e dormia.

Um dia não suportei mais a zombaria do gato. Naquele momento, o bicho não estava mais só na janela, mas via-me acordar, fazia as refeições comigo, via-me chorar na frente do túmulo e ria sem parar, com aquele riso soprado, zombador.

Nesse dia, peguei uma arma e atirei nele. O infeliz desviou e tornei a atirar, até acertá-lo. Uma hora consegui e matei o infeliz. Atirei em minha própria cabeça.

Escrevi esse pequeno conto no começo de 2006, para a disciplina de literatura do meu colégio. A intenção era escrever um conto sobre a estranheza, inspirado em Edgar Allan Poe. Tentei utilizar alguns elementos do conto “O Coração Denunciador” (The Tell-Tale Heart), como o narrador em primeira pessoa, a loucura e o final inesperado. Por pura ignorância e acaso, acabei usando o título de um outro conto de Poe, que acabei de ler, em busca de alguma semelhança com o meu.

Outro ponto importante na construção desse conto foi o fato de que, na época, eu havia acabado de descobrir Machado de Assis e estava absolutamente obcecado pela sua escrita (em especial por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”). Daí vieram as pequenas digressões, os comentários irônicos e misantropos e as pontuações metalinguísticas.

Essa versão que estou postando aqui está levemente alterada em relação à original. Deixei a escrita um pouco mais direta e escrevi com calma, revisando alguns pontos confusos. Na época, escrevi esse conto às pressas, à lápis, e deixei algumas inconsistências na narrativa (o que, felizmente, em nada afetou a minha avaliação). Espero que tenha conseguido polir o texto a um nível aceitável aqui.

O Retrato de Dorian Gray (The Picture of Dorian Gray)

Aproveitando minha volta e meu ímpeto de escrever, começo aqui a redigir sobre os últimos livros que li, antes que mais uma vez volte a esquecer dos detalhes.

Esse, inclusive, é um dos muitos livros que eu já tinha lido, mas precisei reler para poder relembrar. Não só relembrar, mas também entender melhor sua proposta, já que na minha primeira leitura (que fiz enquanto ainda estava na adolescência) não extraí grande significado dele. Felizmente, também não fui muito influenciado pelas ideias apresentadas (porém não defendidas) nele.

Cortando os comentários pessoais pouco importantes, vamos ao que interessa:

O Retrato de Dorian Gray (1980) é o único romance de Oscar Wilde, que conta a história de um jovem, de nome epônimo ao livro, que mantém sua forma jovem e bela, enquanto um retrato seu recebe em seu lugar as marcas correspondentes às suas ações e ao tempo.

O retrato, pintado por Basil Hallward, assume essa propriedade quando o jovem Dorian lamenta-se da injustiça que é o fato dele envelhecer e perder a beleza enquanto a pintura retém a perfeição de seus traços. O protagonista apenas nota que sua lamúria surtiu efeito quando, após humilhar e rejeitar uma atriz amadora com quem se relacionara, de nome Sibyl Vane, percebe que seu retrato assumiu uma expressão cruel.

A partir de então, Dorian esconde o retrato e passa a viver uma vida hedônica, influenciado por Lorde Henry Wotton, amigo do pintor Basil, que mostra ao jovem as suas “opiniões perigosas”, que o levam aos vícios que gradualmente vão transformando a pintura no retrato de um homem horrível e degenerado.

O desenrolar do romance contém cenas de exaltação da beleza e da arte, suicídio, assassinato, vida na alta sociedade inglesa do século XIX, chantagem, vingança e vícios.

Uma das ideias marcantes do livro é a valorização da beleza e estética, que se dá na figura de Dorian, uma pessoa narcisista, cuja beleza também é elogiada e ressaltada pelas outras personagens do livro, inclusive as masculinas. Esse ponto que revela uma característica pessoal do autor, que era homossexual e cujo caso com um outro homem acabou causando uma condenação de dois anos a trabalho forçado (a homossexualidade era considerada crime naquela  época) e o consequente enfraquecimento de sua saúde, que o levou a morte aos 46 anos de idade.

O personagem de Lorde Henry representa os malefícios que as influências podem causar no caráter de outras pessoas. Inicialmente, Dorian era uma pessoa pura, mas Lorde Henry foi capaz de deturpar os pensamentos do jovem, o transformando na figura horrível apresentada no final do livro.

Outro ponto de destaque é a filosofia hedonista passada de Lorde Henry a Dorian. O Hedonismo é uma escola de pensamento que defende que o homem deve sempre buscar maximizar seu prazer e sofrer o mínimo possível de dor. As ações de Dorian refletem essa forma de pensamento, tendo em vista que elas são motivadas pela busca pelo prazer e pela redução dos aspectos que causam dor ou desconforto, independentemente de suas consequências ou efeito às outras pessoas.

Considerando o desfecho da narrativa, acredito que os pensamentos apresentados ao longo do livro não são defendidos, mas sim representados como destrutivos, apesar do prefácio do livro sugerir que a arte em geral não defende opiniões (“The moral life of man forms part of the subject-matter of the artist, but the morality of art consists in the perfect use of an imperfect medium. No artist desires to prove anything. Even things that are true can be proved”).

Falando nisso, o prefácio do livro expõe uma série de aforismos de Wilde a respeito da arte. Um dos meus favoritos, justamente por fazer referência a uma observação que coloquei aqui no início deste post é: “It is the spectator, and not life, that art really mirrors”.

A música como fonte da juventude

Antes do post propriamente dito, um esclarecimento: Depois de três parágrafos introdutórios abortados, me contento em resumir neste que estou insatisfeito por ter deixado de escrever por mais de um ano e que voltarei a tentar registrar alguns pensamentos aqui, para gerar algo que possa preencher os momentos nostálgicos do futuro.

O ano que se passou ficará marcado na minha memória como o período em que voltei a garimpar por sons diferentes. Comecei a buscar por novidade e vigor para carregar minhas baterias através das entradas auriculares.

Um símbolo de juventude em idade avançada: Chuck Berry! Imagem retirada de: http://en.wikipedia.org/wiki/File:Chuck-berry-2007-07-18.jpg

Essa resolução surgiu quando comecei a me dar conta de que sempre ouvia as mesmas coisas e que, a não ser que eu quisesse acelerar meu envelhecimento, precisava renovar meu gosto pela música. Acelerar o envelhecimento? Isso mesmo. De uns tempos para cá, comecei a notar como as pessoas, conforme vão ganhando experiência (quando se tem 23 anos e uma visão Peter Pan quanto à juventude, todo eufemismo para “envelhecer” é válido), vão deixando de descobrir músicas novas. Esse provavelmente é um dos motivos pelos quais suas tias solteiras adoram dançar Bee Gees e As Frenéticas, mas ficam com uma tremenda Poker Face quando toca Lady Gaga.

“Representação artística de sua tia solteira ouvindo Lady Gaga” Por: a Internet

Uma outra reflexão que podemos tirar da sua tia solteira, porém em outro sentido, vem do fato de que a música é capaz de nos trazer de volta à juventude. Canções que ouvíamos muito em determinadas épocas de nossa vida trazem esses tempos de volta às nossas mentes quando escutadas atualmente. Cabe aqui, porém, um alerta: para preservarmos a música como uma das maneiras de nos fazer rejuvenescer temporariamente, temos que evitar ouvir demais as canções que remetem ao passado, caso contrário, elas passarão a relembrar também os momentos nostálgicos. Digo por experiência própria.

Para aliviar um pouco a vermelhidão das orelhas de sua tia solteira, ilustrarei essa ideia com um vídeo de um senhor que é reanimado ao ouvir algumas músicas de seu tempo:

Para não me prologar e para evitar extenuá-lo, não vou ressaltar os benefícios terapêuticos da música, tampouco afirmar que ouvir música pop atual evita o surgimento de rugas ou de dores nas juntas, mas apenas sugerir que ela pode ajudar a manter nossas mentes jovens. Não no sentido de imaturidade, prepotência ou inexperiência, mas sim no inconformismo, dinamismo e entusiasmo (sim, concordo plenamente com você, Hermione Hoby).

Em suma, se você quer se manter jovem, minha dica é: coloque seus fones de ouvido e aproveite a música.

Aproveitando o assunto, compartilho os resultados de minha busca pela juventude, e também candidatas a  músicas que vão me fazer lembrar de 2011/2012 :

  • God Help the Girl: Um projeto paralelo do Stuart Murdoch, líder do Belle & Sebastian, que basicamente soa como uma combinação do som do B&S com o das girl bands dos anos 50 e 60. Destaque para o excelente vocal de Catherine Ireton, a principal vocalista do grupo. Algumas das minhas canções favoritas: God Help The Girl, I’ll Have to Dance With Cassie e Act of the Apostle.
  • Regina Spektor: O som dessa cantora/pianista, que já tem mais de 10 anos de carreira, é bem interessante e passa por diversos estilos e climas. Algumas das músicas dela que mais gosto são: Après Moi, Samson, Us, Fidelity e Lady. Seu novo disco, What We Saw from the Cheap Seats, contém algumas boas músicas, como os singles All the Rowboats e Don’t Leave Me (Ne Me Quitte Pas) (esse último é uma nova versão de uma canção de seu disco de estréia, Songs, de dez anos atrás).
  • Fiona Apple: Ouvi bastante o ótimo disco The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do. A instrumentação pouco convencional e os arranjos minimalistas, combinados com as belas melodias e com a interpretação da cantora, fazem desse álbum um dos meus favoritos do ano. Destaques: Every Single Night, Anything We Want.
  • Jack White: O Blunderbuss me surpreendeu positivamente e foi o ponto alto do meu gosto por rock nesse último período. Aí está um fortíssimo candidato ao título de melhor disco de classic rock de 2012! Algumas músicas: Freedom at 21, Sixteen Saltines, Trash Tongue Talker.
  • Sleigh Bells: A combinação de batidas eletrônicas pesadas, guitarras distorcidas e vocal feminino, apesar de soar um pouco exagerada, foi um dos sons novos que mais me interessou. As faixas que me chamaram a atenção foram Demons e Crush.
  • St. Vincent: Descobri por acaso a música Cruel e, após ouví-la repetidamente por algum tempo, logo procurei mais canções dessa cantora/guitarrista. O catálogo dela é de difícil digestão, mas contém algumas pérolas, como The Strangers, Marrow, Chloe in the Afternoon e a já citada Cruel.
  • David Byrne & St. Vincent: É difícil imaginar o que pode resultar da junção do líder do Talking Heads com Annie Clark (aka St. Vincent), mas por enquanto só tenho a dizer que Who é uma das minhas músicas favoritas no momento e que aguardo ansiosamente o disco dessa dupla.
  • Japandroids: Uma dupla que faz um rock direto e energético, com uma paixão que não escuto há um bom tempo. Gostei bastante do primeiro single de Celebration Rock, The House That Heaven Built.
  • Kimbra: Cantora que ganhou maior notoriedade devido à sua participação no hit Somebody That I Used to Know, de Gotye. Seu disco de estréia, Vows, contém algumas músicas interessantes, dentre as quais a que mais me chamou a atenção foi Cameo Lover.

E essas são algumas das minhas últimas descobertas musicais. Espero encontrar outros sons interessantes em breve, para poder registrar aqui!

[FlocusPocus] Derek and the Dominos – Layla and Other Assorted Love Songs

Só passei para deixar aqui o link para meu último texto: um review sobre o excelente disco Layla and Other Assorted Love Songs, do Derek and the Dominos, que escrevi para o Flocus Pocus, um blog feito em conjunto com um amigo meu.

http://flocuspocus.wordpress.com/2011/07/31/derek-and-the-dominos-layla-and-other-assorted-love-songs/